terça-feira, 27 de março de 2012

É tudo piada!


por todos abandonos cometidos pagarei
aos berros a vida reclama pelas injustiças!
o céu desbotado derruba suas vísceras
de medo me enlameei

é tudo piada, à expectativa de nada!
deboche total
insignificância real
quem merece um lugar ao sol?

Endoida furtivamente o esfincter do mundo
o humano vagabundo
odioso ser, repugna o próprio entorno
em busca de mais e mais adorno

Pra quê? Poeira! Amor?
Sem início, sem começo, sem fim
poeira, caro leitor! Poeira!
(risada de canto de boca)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Anagrama da tristeza do cisne

Devo afastar-me desse amor lento que não ouve quando lamento?
a maior sede de quem ama é o arrebatamento de quem se quer...

Aos trinta anos, o zeloso vê no mínimo mais cinquenta a perder
estatística-mente, embora amar não seja jamais idade um empecilho
especialmente para alma-mente de ideias vivas a arder
onde o amor carnal que lhe parecia fundamental
numa idade mais avançada velho, certamente
os gritos de uma morte anunciada na juventude
precipitam a morte do amor visceral submerso
em breves versos de um jovem homem
que ao pensar em sua senilidade implacável
não vê senão outra pessoa além...
para estar na plenitude do pertencimento
junto num viver inenarrável
desprovido do teu desdém

tempo curto amor eterno
vida longa sem teu amor

depois do fim voltarei cisne
s-e-n-t-i, sou t-i-s-n-e.
Anagrama do cisne sem-ti.  

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Foi como quis.

Despediu-se naquela manhã de julho. Aliás, não foi bem uma despedida, pois contido naquele beijo matinal que recebia enquanto dormia, já elucubrava em nunca mais vê-la, ficando a última imagem dela numa lembrança de silhueta que na porta aberta do quarto o sol da manhã descrevia. Existem monstruosidades necessárias, ou somente são atributos das mentes doentias? Em realidade, doía-lhe não ter se despedido decentemente, e o orgulho dela o surpreendeu quando deixado de lado recebera naquela mesma tarde um ligação que questionava a racionalidade vil daquele gelado coração.
Se conscientizou de que não merecia o amor dela, nem tampouco o carinho, e absorto não raras vezes revivia aquele momento crucial de separação, que o fez escolher entre ela e a outra incerteza da vida que é viver só. Nunca mais se falaram depois daquela ida sem sequer um bilhete em cima da mesa! Foram apenas tentativas infrutíferas de enviar cartas para remediar a irremediável covardia que foi abandoná-la. Ao fim, queria dizer daquelas poesias, pois as perdeu. E como não poderia deixar de ser, os deuses da poesia não suportariam tamanha injustiça. A se soubesse que ela sabe que a justiça foi feita, ao menos teria um pouco de descanso das trepidações inerentes da vida, que quando revividas sem alento descamam ainda mais as feridas.

Simples

O estado de se perder em si próprio
Suplanta toda alternativa vaga
Ócio de ninguém, digressão que propaga
o recanto febril, o átrio, o vazio...

Em fins de tempos as mudanças temporais pouco importam
A moça do tempo dos telejornais
nos dispersa do horizonte que se apaga
tais mudanças dessa nossa vida repleta
pré-constrói os silêncios noturnos
embalados pelo olhar do poeta

De que vale robotizarmos o futuro?
Estar seguro em insosso muro
que aparta as gentes
e nos torna dementes
inaudíveis aos ventos decorrentes
do balé das borboletas
das simples borboletas.

De onde vem os criminosos?

Crise de critérios
Crivos criados nas criaturas
Críticas a crimes
Crianças não são mais que crias
Que recriarão criativamente a criminalidade humana

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Comunicação Arredia

Desossado aprendiz de verme
Quem imaginaria
Por certo teme
A se ver sem precisar do espelho

O latido raivoso do cão
Afoga o horizonte
E uma nave sem motor
se desprende do chão

Num terraço de estrelas
um elevador é construído
Suador na subida
leva o cheiro da terra

Andarilho de coragem
a andarilhar enlatado
frente críticas
deveras criativas

Esvoaçante deleitar
nas pedras indiferentes
felizes no leito do rio
a pólvora inventou o pavio

Imitar o soldadinho
Sonhando ser tesoura
que ao cortar a papoula
Dá início noutra guerra

Clausura repensada
orvalhando cérebros
a terra não pode ser entendida
em seus desígnios quiméricos

João-bolão deixa a língua roxa
e a abelha mirim
deixaria o joelho vermelho
se pudesse picar assim

à Guiga (Daniele) e Datinho (Daltro),
primos que fizeram parte de minha infância querida

Manhãs de Outono

Manhãs de outono
Emaranhados cabelos em estado de vigília
espreguiças de estralar elos
Experimento cotidiano
qual imaginaria
a respirar-te, cheiro a primeira consciência do dia